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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O Eterno Presente: Depressão


Texto que escrevi a partir do livro "O tempo e o Cão" de Maria Rita Kehl, para a aula de ação cultural na faculdade. Talvez a forma seja demasiada acadêmica para um blog, mas considero a discussão feita nele bastante pertinente para a discussão. Inclusive tem elementos para se pensar o novo filme de lars von trier "Melancolia" (inclusive escolhi uma imagem do filme para ilustrar o texto) e indico um artigo da autora sobre o filme http://sergyovitro.blogspot.com/2011/09/flanerie-bipolar-maria-rita-kehl.html. Não gostou de alguma coisa no texto? Comente, escreva outro, que até ganha lugar no blog.

O tempo é precioso. Desperdice-o

Senão a gente ainda vai para

num eito, num presídio ou num hospício.


Resista! Durma! Assuma esta premissa:

A luta tem um símbolo: PREGUIÇA!

Soneto preguicista, Glauco Mattoso


Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Mílton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!

Fernando Pessoa





O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro.

Isso é uma monstruosidade.

O tempo é o tecido de nossa vida


Antônio Cândido








Introdução


O livro da Maria Rita Kehl trabalha com a tese de que a depressão seja uma doença social, muito devido a temporalidade acelerada que é sentida subjetivamente a passagem do tempo, o sentimento de que não há tempo é cada vez mais presente nas sociedades atuais, apesar de termos expandido nossa capacidade de viver para mais de oito décadas). O modo de viver contemporâneo exige a todo o tempo que o sistema Percepção-consciência (conceito do Freud)esteja a todo vapor. Esse sistema da consciência funciona para perceber o atual, o instante imediato, evitando, momentaneamente, que rememorações e lembranças ocorram, o único entendimento possível é do presente imediato. O uso hipertrofiado desse sistema foi percebido por Benjamin, a partir da análise que faz dos bombardeios aéreos durante a primeira guerra mundial, as frequentes ocorrências deles nos campos de batalha tornavam a sobrevivência do soldado não mais dependente de seu treinamento e de suas patentes, e sim da capacidade de estar o tempo todo atento a qualquer ruído estranho, a qualquer movimento que indicasse que um bombardeio estava por vir, a única dimensão da existência que importava era o aqui-agora. Maria Rita Kehl, comenta a partir disso, que as pessoas se sentem cada vez mais bombardeadas de informação e deveres a todo instante, que esse tempo de valor na dimensão temporal presente, que anula todo passado imediato e, até mesmo, planos e fantasias de futuro, torna a vida cada vez mais empobrecida, sem sentido, cada vez a humanidade faz mais coisas e cada vez possui menos tempo. d

A partir da teoria de Lacan, a qual o sujeito da psicanálise não se estabelece a partir de um lugar e sim de de um intervalo, a partir de uma lógica temporal, ente um acontecimento onde o sujeito é obrigado a tomar alguma decisão e até a decisão que ele toma, é imprescindível que exista um tempo intermediário, um tempo de meditação, sendo essa camada intermediária essencial para que o sujeito possa se formar enquanto sujeito, que possa estabelecer uma temporalidade própria e tenha algum controle sobre o inconsciente. “ Ser capaz de escolhas implica uma posição ativa do sujeito, de modo que ele se apresente “no lugar e no momento oportuno para o encontro com algo que não sabia estar lá, mas se desejava encontrar”. Não se trata de um simples encontro ao acaso, e sim de um reencontro com o objeto com a causa de seu desejo”. Cada vez mais há mais encontros e menos reencontros, tornando a vida permanentemente obsoleta, fazendo com que as decisões apressadas e precipitadas do neurótico e as não decisões e inercias do depressivo se igualam, ambas impedem que o sujeito se encontre com o seu desejo.



Trauma/choque e vivência/experiência


Freud estabelece o conceito de trauma, que seria a invasão do Real sobre o psiquismo que não dispõe de recursos para simbolizá-lo, que destrói as redes de representação psíquica que acolhem novos eventos e lhes confere sentido. A constante aceleração que somos submetidos não permite espaço para a simbolização do Real, não a tempo para isso, significa que somos constantemente vítimas de situações traumáticas?

O que seria o conceito de experiência de Benjamin? Nos textos “ O narrador” e “ Experiência e pobreza” o autor trabalha com o conceito negativo dela, com a não mais possibilidade de existência da experiência.,

A partir da análise das Narrativas é possível algumas definições do que seria a experiência, a narrativa seria a possibilidade de atualização do presente no passado, a narrativa se caracteriza por narrar fatos que possuem alguma dimensão utilitária, aconteceram em tempos distantes, em lugares longínquos, sua duração, no ato de narrar, é distendida , constantemente apresentando fatos e eventos miraculosos, e ela só se concretiza no evento de transmissão, a narração necessita que haja alguém que conta e alguém que escuta, pois sua principal característica seria a de intercambiar experiências entre diferentes tradições.

Para compreender esses diferentes aspectos que caracterizam as narrativas é importante a diferença entre a tradição e experiência, sendo que a tradição corresponde ao papel das gerações anteriores de estabelecer o lugar social que cada um deve ocupar no mundo e o tipo de comportamento adequado para isso. Já a transmissão da experiência procura transmitir um saber viver para as gerações anteriores, daí vem o caráter prático que as narrativas possuem:

Mais tipicamente que em Leskov, encontramos esse atributo num Gotthelf, que dá conselhos de agronomia a seus camponeses, num Nodier, que se preocupa com os perigos da iluminação a gás, e num Hebel, que transmite a seus leitores pequenas informações científicas em seu Schatzkastlein (Caixa de tesouros). Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. “Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão pratica, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas se "dar conselhos" parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis. Em conseqüência, não podemos dar conselhos nem a nós mesmos nem aos outros. Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. O narrador Walter Benjamin

No mundo em que o novo é exigido a cada momento, sendo que somos preparados a encarar o novo seja ele qual for, dar conselhos se torna antiquado, a construção de um saber coletivo é impossível, os antepassados já não tem mais capacidade de ensinar nada da vida as gerações posteriores. Essa dimensão do eterno presente e da, consequente, igualdade entre todas as coisas, torna a vida cada vez mais empobrecida, nas palavras de Benjamin:

[..] e aos olhos das pessoas, fatigadas com as infinitas implicações da vida diária e que veem o objetivo da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência que se basta a si mesma, em cada episódio, do modo mais simples e mais cômodo, e no qual um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha, e uma fruta de árvore se arredonda como a gôndola de um balão.”1


A exigência de destruição constante de todo novo instante, torna a vida cada vez mais sufocante, para Maria Rita Kehl:

a temporalidade do presente comprimido das necessidades da vida prática desprovido de quaisquer fantasias a respeito do devir não é muito diferente do tempo estagnado que caracteriza os episódios de depressão. Do ponto de vista do funcionamento psíquico, talvez não haja diferença entre o tempo estagnado e o tempo comprimido; em ambos os casos, o empobrecimento do trabalho psíquico faz com que os estímulos recebidos pelo sistema percepção consciência se pareçam com pequenos traumas, soltos na rede de representações que confere valor e (sentido) imaginário 'a vida.

A partir dessa citação da Kehl, pode-se estabelecer duas das características centrais da narrativas, sua distensão temporal e seu apelo ao imaginário e sonho. Como diz Paul Valéry, nos tempos atuais é necessário abreviar tudo, na narrativa a história era transmitida de forma que o ouvinte se esquecia de si mesmo, possibilitando que ele mergulhasse nos fatos e, a partir deles, tecesse sentido com, sua vida. A narrativa carecia de explicações psicológicas, dando abertura para que o receptor se relacionasse com ela tal como Édipo se relacionava com a esfinge, respondendo as perguntas sobre o sentido de sua viva, normalmente a narrativa era contada em volta de uma fogueira, enquanto os ouvintes se ocupavam do trabalho lento de tecer, fazendo com que as diversas estórias se gravassem automaticamente neles, e no ato de transmiti-las eles passavam sua marca subjetiva aos saber coletivo construído por seus antepassados, “ Ela não está interessada em transmitir o "puro em si" da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso


Sendo que os acontecimentos míticos e fantásticos descritos mais minuciosamente que as características psicológicas ampliam a possibilidade do ouvinte de livre interpretação da história, fazendo com que o episódio narrado possua uma amplitude maior que a restrição das informações, nas palavras de Kehl


[...] Através das narrativas, às gerações presentes legam saber as gerações seguintes, tal saber, acrescido das representações imaginárias do passado – aparentemente inúteis do ponto de vista prático-, tem o poder de adicionar valor e encanto à vida. Essa é uma das funções das narrativas: através delas, a experiência de uma comunidade de convivência forma uma cadeia ou uma rede de histórias, passadas de geração em geração. É importante lembrar que as narrativas não cumprem apenas um função, digamos, ética. A dimensão formal, estética, das narrativas, acrescente encantamento ao saber transmitido; elas dotam o passado de qualidades mágicas e preservam na vida consciente da comunidade uma série de representações e afetos caros ao imaginário infantil. Mais a frente temos: A condição da experiência benjaminiana é antes o ócio que a atividade, “o tédio é o pássaro do sonho que choca os ovos da experiência.”” O tempo e o Cão, Maria Rita Kehl.


Todas as características descritas sobre a narração constituem o conceito de experiência, sendo que a principal para compreender a vida sendo construída por meio de traumas é a possibilidade de atualização do passado no presente, a narrativa possibilitava que a invasão do Real fosse simbolizada pelo psiquismo, até mesmo a possibilidade certeira da morte ganhava sentido e era simbolizada coletivamente nas narrativas, possibilitando que cada indivíduo não tivesse que “viver a vida sem ter de tomar para si o duro encargo de ser o guardião solitário de todo o vívido”2. A oposição a existência, Benjamin chama de vivência, que é condição de submissão ao tempo do eterno presente. Kehl ilustra essa condição de vivência com uma fala de um de seus pacientes: “Hoje temos que trabalhar cada vez mais e mais rápido, para morrermos o quanto antes”

“Quer dizer do estatuto da experiência em nossa modernidade tardia? Seremos “traumatófilos” sem escolha, condenados a reduzir nosso modo de estar no tempo à atividade contínua de aparar o choque dos estímulos cada vez mais velozes, de modo a impedir que desorganizem a vida psíquica?


Freud estabelece que o trauma é um evento que desestabiliza todas as cadeias de representações psíquicas, sendo que o psiquismo busca, por meio de recordações e sonhos, fixar o trauma em sua rede de interpretações do real, integrar os estímulos traumáticos entre outras energias psíquicas. Sendo que enquanto essa integração não ocorrer, vai haver as marcas mnemônicas do evento traumático, fato esse definido como pulsão de morte. A consciência tende a ser vista como a principal característica do funcionamento psíquico devido a premência contemporânea de estar sempre em atividade, do trabalho ininterrupto gozar de prestígio social. Para Freud essa função é pobre se comparado com o inconsciente e o pré-consciente. A consciência só é capaz de elaborar essas parcelas do real no mundo externo, em suas palavras:

A consciência se caracterizaria, portanto, por uma particularidade: o processo estimulador não deixa nele qualquer modificação duradoura de seus elementos, como acontece em outros sistemas psíquicos, porém como se esfumaça no processo de conscientização... A conscientização e a permanência do traço mnemônico são incompatíveis no mesmo sistema.

Quando a atenção consciente é permanentemente solicitada a trabalhar, a temporalidade psíquica se torna um sucessão de momentos presentes(vivência). Para Kehl os efeitos psicológicos disso são

“Quando, depois de uma semana ou um mês de intensa atividade, alguém reclama que o tempo passou depressa demais, é disso que se trata, o sujeito se dá conta que o tempo não foi vivido como um decorrer, um fluxo dotado de duração, mas como uma sensação de instantes presentes que não deixaram no psiquismo marca alguma além da pequena e imediata modificação da consciência exigida pela velocidade dos estímulos externos.

A consciência é essencial para que o ser humano consiga se adaptar ao meio em que vive, para que possa participar da realidade, mas corresponde a uma função bastante limitada, mas corresponde a uma função bastante limitada da vida, a de perceber os estímulos externos, sendo que a interpretação e o sentido deles depende da assimilação que o inconsciente faça disso, é por meio do inconsciente que os instantes acontecem enquanto reencontros, que é a capacidade do passado se atualizar no presente, e isso só acontece pela desativação provisória da atenção presente. Para Kehl “ Nisto consiste o valor do trabalho psíquico de organizar percepções inesperadas e surpreendentes- por isso mesmo potencialmente traumáticas – ligá-las a uma rede de representações que lhes conferem sentido e transformar a marca dessas percepções em lembranças, de modo que sua repetição possa ser acolhida pelo psiquismo na forma de uma significação menos conhecida.

Benjamin estabelece uma diferença entre trauma e choque, sendo o choque simplesmente o estímulo externo (que potencialmente é um trauma) . Sendo que a velocidade com que a consciência é “bombardeada” pelos choques é o responsável pela desqualificação da experiência na modernidade. Sendo que essa carência de sentidos, esse tempo cada vez mais escasso de simbolização do real, para Benjamin, precipitam o indivíduo na melancolia. Em suas palavras:

Quanto maior a participação do fator choque em cada uma das impressões, tanto mais constante deve ser a presença do consciente no interesse em proteger contra os estímulos, quanto maior for o êxito com que ele operar, tanto menos essas impressões serão incorpordas a experiência, e tanto mais corresponderão ao conceito de vivência. Afinal, talvez seja possível ver o desempenho característico da resistência ao choque na sua função de indicar ao acontecimento, à custa da integridade do seu conteúdo, uma posição exata na consciência. Esse seria o desempenho máximo da reflexão, que faria do incidente uma vivência. Se não houvesse reflexão, o sobressalto

agradável ou (na maioria das vezes) desagradável produziria, invariavelmente sobressaltos que, segundo Freud, sanciona a falha da resistência ao choque.

O indivíduo contemporâneo, para evitar que os choques se transformem em trauma, opera a reflexão se antecipando aos acontecimentos, isso só é possível igualando todas as coisas, um automóvel não pode pesar mais do que um chapéu de palha. Essa proteção psíquica só é possível através do sacrifício de qualquer coisa que possa ser experiência.

Esse mecanismo ,adaptativo ao meio, de evitar com que os choques se transformem em trauma através da antecipação dos acontecimentos, cobra um preço social e subjetivo bastante caro. O aumento desenfreado de casos de depressão, que seria se retirar do tempo exigido pelo outro imaginário por meio da inércia, talvez seja o alarme humano tocando sobre o tempo cronometrado e ditado por maquinas. Kehl, na introdução do livro, justifica a análise social por meio do fenômeno individual da depressão afirmando que: “ Nenhuma reflexão crítica sobre a ordem social pode prescindir da análise dos dispositivos de engajamento libidinal dos sujeitos nas estruturas simbólicas que a determinam” e mais a frente:

“Analisar os aumentos de depressões como sintoma do mal-estar social no século XXI significa dizer que o sofrimento dos depressivos funciona como sinal de alarme contra aquilo que faz a água na grande nau da sociedade maníaca em que vivemos. Que muitas vezes as simples manifestações de tristeza sejam entendidas (e medicadas) como depressões graves só faz confirmar essa ideia. A tristeza, os desânimos, as simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado”





Considerações finais


Embora o tema do trabalho, e o livro de Maria Rita Kehl não trate diretamente sobre teatro ou ação cultural. Considero que a arte e, qualquer proposta pedagógica, tem que ter o sentido de quebrar a alienação a que somos submetidos em todos os aspectos da vida, sendo que a alienação do tempo e seus efeitos é um forte obstáculo para estabelecer um espaço onde:

a consciência reflete sobre si mesma, inventa a si mesma, se abre para as possibilidades, libertando-se do ser e do dever ser para o desafio do dever ser; onde a consciência está a beira de muita coisa, sem saber bem o que, gerando imagens imateriais do mundo tal como esse existe em sua aparência precária, fugidia e imediata, isenta de normas e coações. Ação Cultural, Teixeira Coelho

O uso cada vez mais apressado do tempo não reflete, como pode parecer, uma possibilidade de ampliação da vida, mas sim sua negação. O imperativo de aproveitar o tempo se liga ao ditado: tempo é dinheiro. Se o tempo é o tecido histórico pelo qual constituímos nossa vida,

repensá-lo é uma necessidade básica de estabelecer um espaço de ação cultural, e o tema de o “tempo e o Cão” lança luzes essenciais para tal fim.
















Bibliografia


KEHL, Maria Rita; O tempo e o Cão: a atualidade das depressões; Boi tempo, 2009


BENJAMIN, Walter; Magia e Técnica, Arte e Política; Edi Brasiliense, 1996


COELHO, Teixeira, O que é ação Cultural, edi Brasiliense, coleção Primeiros Passos


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